Estava por esses dias pensativo, a cabeça cheia de ideias mas sem organizar algo passível de virar texto pro blog, quando me deparo com a notícia da queda do avião da Air France.

Toda tragédia parece trazer consigo um recado dos deuses: somos mesmo pequenos e impotentes. Não somos assim tão donos do nosso destino. Acho que o texto abaixo sintetizou tudo que me veio à mente quando me pus a pensar sobre o ocorrido, e nada tenho a acrescentar.

Quatorze minutos de eternidade (por Ruy Castro)

03/06/2009 Folha de São Paulo

Entre a hora presumida de entrada do Airbus A330 da Air France na zona de turbulência sobre o Atlântico e a última mensagem enviada pelo equipamento do avião, na noite de domingo, passaram-se 14 minutos. Se fosse só isso, já seria aterrorizante. Mas o tempo de apreensão, angústia e pavor a bordo pode ter sido ainda maior para os 228 passageiros e tripulantes.

É tempo de sobra para que, diante da iminência de morte, a vida – tudo que se fez e se disse, ou o que deixou de ser feito ou ser dito_ passe várias vezes pela cabeça de uma pessoa, com uma definição de cinema. E com uma crueldade de Juízo Final, porque não há mais tempo para dizer ou fazer o que faltou.

Entre os que conseguem se manter íntegros em tal situação, há quem tente vencer o abismo rabiscando algo às pressas, descrevendo o avião em queda ou a aproximação das chamas, despedindo-se de parentes ou namorados, ou tentando deixar uma reflexão mais profunda. É uma tentativa desesperada de comunicar-se pela última vez, de fazer com que sua voz seja ouvida depois do nada.

Sabemos disso porque fragmentos dessas mensagens costumam ser encontradas em destroços de aviões caídos em terra. É por esses retalhos calcinados que nos damos conta de que o drama pessoal de cada vítima de um acidente aéreo é maior do que a fria estatística da soma dos mortos no mesmo acidente.

Na tragédia do voo AF 447, comovemo-nos com o casal rumo à lua-de-mel em Paris e com o alemão que iria tratar dos papéis para se casar com uma brasileira. Mas havia também empresários, professores e executivos, que viajavam a negócios, a estudos ou para receber prêmios _enfim, para um luminoso futuro próximo. E outros cujas histórias pessoais, talvez riquíssimas, nunca chegaremos a conhecer.

Ruy Castro é escritor e jornalista