política


Trabalhei como fiscal do PT nas Eleições 2010. Tudo correu normalmente, pouco diferente das eleições municipais anteriores, em que estiveram mais evidentes as rivalidades locais. Estávamos sentados num banco do local de votação eu, meu irmão e meu cunhado. Tamanha era a tranquilidade naquele dia histórico em que elegemos a primeira mulher presidente do nosso país, que nos permitimos ficar ali de bobeira algum tempo.

Já era de tarde, nós no banquinho, um senhor de idade se aproxima. Inicia um monólogo sem pedir licença. Diz estar satisfeito por ser esse ano sua última votação obrigatória, e última de todas, também, uma vez que não voltaria jamais a uma urna para dar o voto a qualquer que fosse o político. No seu entender são todos bandidos corruptos. Continuou seu discurso, o qual escutamos atentamente, na condição de jovens que respeitam a experiência do mais velho. Fez questão de deixar claro o fato de não confiar em nenhum político em particular, justificando seu voto em branco. Tal posicionamento mostrou-se duvidoso, tendo em vista a teoria que se seguiu, o que nos obrigava a enquadrá-lo numa categoria muito conhecida na sociedade. A do conservador de direita que assim exerce o voto mas tem vergonha de assumir, alegando descrédito na política em geral.

Reclamou ter chegado às portas da velhice tendo uma aposentadoria mínima diante de tanta contribuição dada à Previdência, em sua época ativa. Criou e formou os filhos na ‘faculdade’, com o suor do trabalho duro. Depois de tanto anos contribuindo, tinha uma aposentadoria insignificante, pois o governo preferia dar o dinheiro como esmola aos pobres.

Além disso, segundo sua concepção econômica, as mulheres de vida fácil de uma certa região pobre de Minas apressam-se em ‘pegar barriga’, para ter acesso ao Bolsa-Família. O que torna difícil ao empresário conseguir mão-de-obra. Não interessa ao ‘vagabundo’ trabalhar duro por um salário mínimo, uma vez que pode ficar à toa, tendo como única tarefa se reproduzir, de modo a aumentar o valor da esmola do governo.

Seguimos ouvindo o desabafo do tucano enrustido, entreolhando-nos como quem sabe ser inócua qualquer tentativa de argumentação. Elegemos a Dilma. Mais tarde, qual não foi o espanto quando o vi recebendo dízimo dos fiéis na salinha destinada a esse fim na paróquia local. A César o que é de César. Pensei. Na cabeça dele, esmola boa é a clássica, é dinheirinho dado ao miserável esperando reconhecimento moral de Deus e aprovação da sociedade. E o melhor: não muda em nada o desenho geral e as posições relativas de quem dá e recebe. Tudo permanece igual, como sempre deve ter sido. Pobre bom é pobre que sabe o seu lugar. Ainda bem que o Estado é laico.

Todo mundo tem opinião sobre tudo. Desde as questiúnculas das relações internacionais, passando por políticas públicas, até física nuclear. Tudo bem. Adotar um ponto de vista é necessário e saudável numa sociedade democrática. Mais importante, contudo, é ter consciência de que, muito diferente de uma verdade científica irrefutável, uma opinião é, somente, um ponto de vista. É uma referência, uma base que deverá nortear um indispensável aprofundamento.

Ter clara noção dessa realidade torna a convivência entre as pessoas menos desgastante, na medida em que elimina a frequência de discussões inúteis, iniciadas por divergências entre meras opiniões: por que levar demasiado a sério nossas diferenças intelectuais, ideológicas ou culturais?

Dificilmente me disporia a debater em profundidade a física das partículas atômicas, com alguém cuja formação seja nessa área. Simplesmente por haver uma absurda disparidade entre o conhecimento acumulado por ambas as partes. Isso não quer dizer que eu não deva discutir, por exemplo, as implicações do uso de energia nuclear. Não preciso conhecer meticulasamente o processo de fissão nuclear para saber que a manipulação de energia atômica, com todos os seus prós e contras, é de importância vital no mundo em que vivemos.

Da mesma forma deve-se pensar quando se fala em política. Não é pequeno o número de pessoas que acreditam ser assunto para especialistas. Isso quando não se eximem de sua responsabilidade, sob as justificativas mais comuns: ‘não gosto de política’ e ‘política não interessa’. Quem pensa dessa forma entrega a terceiros a condução de seu destino, sem ao menos expressar conformidade ou indignação. Como é que se muda uma realidade, sem esforço político? Política tem um significado muito mais amplo do que politica partidária ou governamental. As ONGs são exemplos de movimentação civil para suprir demandas que o estado não consegue suprir, ou atende de maneira insatisfatória.

Já dizia Aristóteles, o ser humano é um animal político. Não haveria outro modo de convivermos em sociedade, se não o fôssemos. Abrir mão de certos interesses particulares em troca de uma estabilidade coletiva. A essa permuta necessária para o vínculo social se dá o nome de jogo político. Do qual nenhum de nós está isento. Lembrando Sartre, a decisão é sempre nossa. Inclusive não decidir. Portanto, ao relegar nosso direito à participação política, estamos decidindo que outros decidam em nosso lugar.