Por onde seguir?

Medo é uma coisa normal na vida de uma pessoa. Na minha, então, é constante. Não o considero ruim. O medo está mais para conselheiro, espécie de amigo que cochicha opiniões ao pé do meu ouvido. Não que seja sempre um amigo muito fiel. Tem dias que ele me aporrinha demais, tenta amarrar-me à cama, ao acordar. Não é fácil. Há horas em  que o choro vem. E ele é quase sempre um alívio, um refrigério na alma.

Mas sinto vergonha de expor meus medos. Quase sempre os escondo. Porque parece que hoje em dia você precisa ser um super-herói. Vencer sempre, na vida, no trabalho (excelência disso, excelência daquilo…). Vencer a si próprio. Melhorar a cada dia! Superar-se a todo momento. Estafante.

É proibido ser ‘normal’, errar e levantar, perder. A Mídia, o Mercado, a Sociedade, esses três gigantes  nos dizem que só vence quem está no topo, quem ultrapassou todos os limites do possível. Quem pegou uma pick-up zero bacana e foi meditar lá no alto da montanha. Entrou num possante de luxo, trancou os vidros escurecidos e fechou-se para o trânsito selvagem dos mortais comuns lá de fora. Encheu o carro de gente bonita e foi direto pra balada lotada de gente mais bonita ainda. Ou quem atingiu o cume da carreira empresarial, o ápice da fama, ou coisa que o valha. Para quê?

É fato: não há lugar para todo mundo vencer. Pelo menos não se acreditarmos que vencer é estar acima de alguém. Esse tipo de vitória é temporária, cruel. O individualismo decorrente desta visão de mundo só pode levar a sociedade a uma espiral de infelicidade cada vez mais gritante.

Claro que, num mundo assim, hesitar é  sinal de fraqueza. Debilidade, inaptidão. Dúvidas, medo do futuro, é coisa de fracassado. O ‘fodão’ é quem tem a vida toda planejada detalhadamente numa planilha. Mas essa é a visão que nos é empurrada. Não precisamos aceitá-la.

Acho mais interessante esboçar pequenos passos, consciente da minha insignificância diante do acaso, do universo, da Vida. É essa humildade que vai me permitir me levantar toda vez que cair, com a esperança da criança que sabe que um dia vai aprender a andar de bicicleta, não importando o número de quedas até chegar lá. Diferente do super-herói da história dos três gigantes: sua queda é inominável, quando cai, desaba o universo junto, não sobra mais nada, resta apenas a depressão de perceber-se impotente.

A verdade é que a dúvida é a mais clara evidência do estado de vitalidade de um ser humano. Dúvida é angústia! Angústia é criatividade. É ver-se obrigado a inventar saídas, arriscar o próximo passo sem certezas escritas nas estrelas. Alegre-se, se sua mente parece fervilhar em meio a tantas decisões necessárias e com tempo contado. E com risco de errar! Essa é a vida. Não acredite em livro, doutrina ou qualquer outra coisa que lhe disser que existe um caminho tranquilo e pronto-para-vestir. Esqueça tudo o que lhe disseram sobre vocação, talento natural, roteiros pré-definidos. Desconfie de quem lhe apregoar o contrário disto: a sua vida é você quem a faz. Suas escolhas serão unicamente suas. Sua ‘carreira’ é você quem inventa. Decidir dói. É verdade. Escolher uma alternativa entre cem é largar todas as outras noventa e nove, com toda a ansiedade que isso possa gerar.

É a vida. Vamos vivê-la?

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