novembro 2010


Trabalhei como fiscal do PT nas Eleições 2010. Tudo correu normalmente, pouco diferente das eleições municipais anteriores, em que estiveram mais evidentes as rivalidades locais. Estávamos sentados num banco do local de votação eu, meu irmão e meu cunhado. Tamanha era a tranquilidade naquele dia histórico em que elegemos a primeira mulher presidente do nosso país, que nos permitimos ficar ali de bobeira algum tempo.

Já era de tarde, nós no banquinho, um senhor de idade se aproxima. Inicia um monólogo sem pedir licença. Diz estar satisfeito por ser esse ano sua última votação obrigatória, e última de todas, também, uma vez que não voltaria jamais a uma urna para dar o voto a qualquer que fosse o político. No seu entender são todos bandidos corruptos. Continuou seu discurso, o qual escutamos atentamente, na condição de jovens que respeitam a experiência do mais velho. Fez questão de deixar claro o fato de não confiar em nenhum político em particular, justificando seu voto em branco. Tal posicionamento mostrou-se duvidoso, tendo em vista a teoria que se seguiu, o que nos obrigava a enquadrá-lo numa categoria muito conhecida na sociedade. A do conservador de direita que assim exerce o voto mas tem vergonha de assumir, alegando descrédito na política em geral.

Reclamou ter chegado às portas da velhice tendo uma aposentadoria mínima diante de tanta contribuição dada à Previdência, em sua época ativa. Criou e formou os filhos na ‘faculdade’, com o suor do trabalho duro. Depois de tanto anos contribuindo, tinha uma aposentadoria insignificante, pois o governo preferia dar o dinheiro como esmola aos pobres.

Além disso, segundo sua concepção econômica, as mulheres de vida fácil de uma certa região pobre de Minas apressam-se em ‘pegar barriga’, para ter acesso ao Bolsa-Família. O que torna difícil ao empresário conseguir mão-de-obra. Não interessa ao ‘vagabundo’ trabalhar duro por um salário mínimo, uma vez que pode ficar à toa, tendo como única tarefa se reproduzir, de modo a aumentar o valor da esmola do governo.

Seguimos ouvindo o desabafo do tucano enrustido, entreolhando-nos como quem sabe ser inócua qualquer tentativa de argumentação. Elegemos a Dilma. Mais tarde, qual não foi o espanto quando o vi recebendo dízimo dos fiéis na salinha destinada a esse fim na paróquia local. A César o que é de César. Pensei. Na cabeça dele, esmola boa é a clássica, é dinheirinho dado ao miserável esperando reconhecimento moral de Deus e aprovação da sociedade. E o melhor: não muda em nada o desenho geral e as posições relativas de quem dá e recebe. Tudo permanece igual, como sempre deve ter sido. Pobre bom é pobre que sabe o seu lugar. Ainda bem que o Estado é laico.

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Tempos que não dou as caras por aqui. Já tava mais que na hora. Não farei promessas para mim mesmo quanto a postar com determinada frequencia (pelo menos alguma!). Espero que agora eu seja mais assíduo por aqui.

Vamos falar de música. Pois.

Cidadão Quem é uma banda do Rio Grande do Sul que por algum motivo não se tornou tão popular quanto seu conterrâneo Humberto Gessinger. E Cidadão é bem melhor, hein. Nesse vídeo, os dois juntos:

Outra música linda: