Sobre telefones, trotes e campainhas [maio/2005]

Numa bela manhã de sol, toca o telefone. Vem a famigerada musiquinha da ligação a cobrar. Em seguida, uma delicada voz feminina. Pacientemente, atendo :

– Alô.

– Olá, você pode me fazer um favor?

Eu, ingênuo:

– Claro!

– É que deixei meu carro em frente à sua casa, você poderia checar se ele ainda está aí? É um de cor “cinza-gelo”.

Sinto um ligeiro frio pelo corpo, como que antevendo o pior. Já resignado, respondo:

– Não o vejo.

– Que pena, ele deve ter derretido…

Desligo o telefone abatido, em silêncio, ferido em meus brios. Logo eu, sujeito versado na tal piada via telefone, cair num trote tão primário.

Lembro-me do meu último trote em parceria com um amigo. Inspirados num filmeco fomos tentar a sorte. Foi mais ou menos assim (engrossando a voz):

– Vamos fazer um jogo. Você terá de me dizer de qual filme de terror mais gosta…

A moça do outro lado, friamente:

– Não gosto desse jogo…

– Tem que responder, senão a morte é sua pena!

– Olha aqui garoto, não tem mais o que fazer não?? Estou aqui com seu telefone e vou avisar o seu pai sobre isso!

Desligamos pedindo desculpas. Não é que a moça dispunha de um poderoso identificador-de-chamadas? Como saberíamos… Naquela época era tão raro…

Devido a esse insucesso no trote passamos a nos divertir tocando campanhia de casas pela rua. O alvo preferido eram os interfones, dava pra tira um sarro da cara do morador. Pra que a coisa ficasse legal, íamos os dois numa bicicleta, assim podíamos esperar o sujeito chegar na porta aos berros e depois sair correndo.
Não raro o piloto do camelo deixava pra trás o moleque da garupa (que obviamente ficava em maus lençóis).

***

Momento reflexão: temos uma só boca e dois ouvidos, escutar mais que falar. Temos (pasmem!) dez dedos, seria para escrever ainda mais que ouvir? (no teclado hein pessoal)

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