fevereiro 2010


Todo mundo tem opinião sobre tudo. Desde as questiúnculas das relações internacionais, passando por políticas públicas, até física nuclear. Tudo bem. Adotar um ponto de vista é necessário e saudável numa sociedade democrática. Mais importante, contudo, é ter consciência de que, muito diferente de uma verdade científica irrefutável, uma opinião é, somente, um ponto de vista. É uma referência, uma base que deverá nortear um indispensável aprofundamento.

Ter clara noção dessa realidade torna a convivência entre as pessoas menos desgastante, na medida em que elimina a frequência de discussões inúteis, iniciadas por divergências entre meras opiniões: por que levar demasiado a sério nossas diferenças intelectuais, ideológicas ou culturais?

Dificilmente me disporia a debater em profundidade a física das partículas atômicas, com alguém cuja formação seja nessa área. Simplesmente por haver uma absurda disparidade entre o conhecimento acumulado por ambas as partes. Isso não quer dizer que eu não deva discutir, por exemplo, as implicações do uso de energia nuclear. Não preciso conhecer meticulasamente o processo de fissão nuclear para saber que a manipulação de energia atômica, com todos os seus prós e contras, é de importância vital no mundo em que vivemos.

Da mesma forma deve-se pensar quando se fala em política. Não é pequeno o número de pessoas que acreditam ser assunto para especialistas. Isso quando não se eximem de sua responsabilidade, sob as justificativas mais comuns: ‘não gosto de política’ e ‘política não interessa’. Quem pensa dessa forma entrega a terceiros a condução de seu destino, sem ao menos expressar conformidade ou indignação. Como é que se muda uma realidade, sem esforço político? Política tem um significado muito mais amplo do que politica partidária ou governamental. As ONGs são exemplos de movimentação civil para suprir demandas que o estado não consegue suprir, ou atende de maneira insatisfatória.

Já dizia Aristóteles, o ser humano é um animal político. Não haveria outro modo de convivermos em sociedade, se não o fôssemos. Abrir mão de certos interesses particulares em troca de uma estabilidade coletiva. A essa permuta necessária para o vínculo social se dá o nome de jogo político. Do qual nenhum de nós está isento. Lembrando Sartre, a decisão é sempre nossa. Inclusive não decidir. Portanto, ao relegar nosso direito à participação política, estamos decidindo que outros decidam em nosso lugar.

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O mal-entendido é a matéria humana.
Nunca digo o que escutas.
As palavras dançam passos desajeitados.
Tentas corrigir-lhes o ritmo, acabas por compor nova música.
E são tantas músicas, e tanto barulho, é tanto som, palavras, palavras, palavras, como tiros…
Mas tudo logo se acalma, vê só…

Do silêncio as palavrinhas se remexem.


Sobre telefones, trotes e campainhas [maio/2005]

Numa bela manhã de sol, toca o telefone. Vem a famigerada musiquinha da ligação a cobrar. Em seguida, uma delicada voz feminina. Pacientemente, atendo :

– Alô.

– Olá, você pode me fazer um favor?

Eu, ingênuo:

– Claro!

– É que deixei meu carro em frente à sua casa, você poderia checar se ele ainda está aí? É um de cor “cinza-gelo”.

Sinto um ligeiro frio pelo corpo, como que antevendo o pior. Já resignado, respondo:

– Não o vejo.

– Que pena, ele deve ter derretido…

Desligo o telefone abatido, em silêncio, ferido em meus brios. Logo eu, sujeito versado na tal piada via telefone, cair num trote tão primário.

Lembro-me do meu último trote em parceria com um amigo. Inspirados num filmeco fomos tentar a sorte. Foi mais ou menos assim (engrossando a voz):

– Vamos fazer um jogo. Você terá de me dizer de qual filme de terror mais gosta…

A moça do outro lado, friamente:

– Não gosto desse jogo…

– Tem que responder, senão a morte é sua pena!

– Olha aqui garoto, não tem mais o que fazer não?? Estou aqui com seu telefone e vou avisar o seu pai sobre isso!

Desligamos pedindo desculpas. Não é que a moça dispunha de um poderoso identificador-de-chamadas? Como saberíamos… Naquela época era tão raro…

Devido a esse insucesso no trote passamos a nos divertir tocando campanhia de casas pela rua. O alvo preferido eram os interfones, dava pra tira um sarro da cara do morador. Pra que a coisa ficasse legal, íamos os dois numa bicicleta, assim podíamos esperar o sujeito chegar na porta aos berros e depois sair correndo.
Não raro o piloto do camelo deixava pra trás o moleque da garupa (que obviamente ficava em maus lençóis).

***

Momento reflexão: temos uma só boca e dois ouvidos, escutar mais que falar. Temos (pasmem!) dez dedos, seria para escrever ainda mais que ouvir? (no teclado hein pessoal)