Eu queria poder cantar todas as canções que eu ainda não fiz, mas que as tenho aqui dentro e por algum motivo doido ainda não consegui botar pra fora. E sim, a gente tem que botar nossas canções pra fora, a gente é bicho que faz música, todo mundo é assim. Todo mundo tá no mundo pra sair assoviando melodias, vai que alguém escuta e acompanha. O silêncio ajuda, me escuto melhor. O escuro, só o barulho dos carros lá fora, as paredes tremendo em ressonância, danada essa tal de ressonância, me lembro das aulas de Física. E não é que a vida é isso mesmo, um punhado de ondas vibrando mais ou menos alinhadas umas com as outras. Tem gente que não segue a minha onda, e eu não sigo a onda de muita gente. Vai saber o porquê. Nem é preciso, eu sou apenas uma onda, as pessoas também… Eu não sou perfeito, mas quem falou em perfeição? De onde vem as amarras, essas correntes todas, essa energia toda de prender a garganta, e a gente não fala nada, nem sai voz. Não sei. Mas a gente tem que falar, tem que dançar, o mundo é um palco, a vida é um teatro? Se for, eu quero ser o diretor das minhas próprias cenas, não sei o que sou nas peças dos outros. Que será? Eu não sei, eu não sei. Tá chovendo bastante, a chuva depois de muito tempo de sol rachando faz um bem danado, o café fica mais gostoso.