junho 2009


Silenciosa.

Silenciosa.

O ponto final sempre chega. Quer seja um – adendo entre travessões – , quer seja um (parêntese aberto por médicos no afã de alongar um pouco a passagem do sujeito pela Terra e fechado pelos mesmos médicos comovidos ante a agonia de um estado vegetativo), a morte é infalível. As pessoas morrem. Ponto. Parágrafo.

Não que a gente se lembre disso sempre. Na verdade fazemos questão de esquecer. Eu, pelo menos, o faço, na maioria do tempo. Quando morre uma Dercy Gonçalves da vida, símbolo de longevidade (não de moralidade, mas o que é moral quando se termina debaixo da terra), como dizia, quando morre alguém desse naipe, me pego matutando ali por uns cinco minutos (com direito a toda aquela sensação de garganta entalada e frio na espinha característicos do excesso de consciência), imagino como será que hão de levar a vida sem mim, e eis que cai a minha ficha, tudo há de correr perfeitamente sem a minha presença, a normalidade deve se restabelecer alguns dias depois da visita do primeiro verme a comer a minha carne fria. Mas essas elucubrações atormentadoras passam depressa, santa televisão, logo depois do plantão jornalístico tem o futebol, ah, maravilha, salvo da lucidez por mais algum tempo. Mas ela volta.

É a tragédia que me traz à baila novamente a temática do fim. Do outro, diga-se. Até o meu próprio fim é certo que inventem uma saída, um desvio científico, um estratagema médico-tecnológico de ponta, enfim, o que importa é que o fim soa sempre meio novela da globo. O enredo é previsível. Uma miríade de lugares-comuns, choro torrencial aqui ou acolá. Trilha sonora. Alguma cerimônia em cujo fim todos tenham que encenar uma espécie de reverência a um ente superior que tira a vida, mas que tem, certamente, boas razões para tal. Não que as exponha. Vá lá, talvez algum pastor, padre, espiritualista, quiçá algum aluno mais aplicado dos cursos de retórica por correspondência arrisque um palpite. Mas é preciso ser vago: ou corre-se o risco de pôr a claro o mistério universal, jogar as cartas do Criador na mesa. E para isso a humanidade ainda há de comer bastante terra. Digo, comer palavra. Sagrada, de preferência. Não que satisfaça por completo o mortal comum, mas dá um pouco de energia e segurança pra seguir adiante. Alguns mais gulosos do saber tornam-se doutores da lei, e aparentam gozar do pleno saber místico acerca dos fins últimos da existência. Hegelianos radicais, tem certeza de que no fim tudo há de ser Deus. Do pó ao Espírito. Mas não convém explicitar de que modo há de se dar o fato: contentem-se com migalhas, povo de Deus. A fé levará ao banquete eterno do saber, à maçã sagrada saboreada por Adão (e sua costela falante, Eva).

Às vezes é confortável pensar na morte como a visita de uma caveira mal-encarada, portando uma foice (sem função), sedenta por almas. Mas é difícil conceber alguma motivação num ser de cujo rosto nada se pode depreender – a não ser o fato de que não desfruta prazer sádico algum na tarefa que lhe cabe. Talvez alguma compaixão,  além de certa repulsa pelo trabalho monótono, eterno. Pensemos bem, sua situação não é muito melhor que a nossa. Em que pese paradoxalmente sua condição de imortalidade, a morte é para sempre morte, permanente condutora das almas para sabe-se lá que lugar. Desconheço qualquer plano de carreira para a função de buscador de espíritos. Se, por nossa vez, dispomos da vida na Terra para tentar forjar algum sentido, alguma filosofia, algumas igrejas, a pobre coitada tem certeza de não existir rumo algum para a existência. E sabe desde sempre. Não deve ser fácil não fazer nenhum sentido eternamente. Ao menos há tempo mais do que suficiente para resignação.

O ser humano é um fanfarrão, e é um ingênuo. Convencido de sua própria grandeza, coroa-se a si próprio obra-prima da Criação. Liberta-se da angústia driblando sua condição miserável e impotente ante a natureza vivendo como protagonista de um espetáculo particular sem roteiro muito definido – mas o que é a indefinição, a incerteza, senão a cegueira para as coisas do Criador, para a luz que um dia há de ofuscar o brilho tímido de nossa abissal ignorância? No fundo somos todos imortais. Pelo menos enquanto não paramos de respirar. Ou até que nos visite a caveira entediada, e nos comprazamos com sua dor sem fim.

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Estava por esses dias pensativo, a cabeça cheia de ideias mas sem organizar algo passível de virar texto pro blog, quando me deparo com a notícia da queda do avião da Air France.

Toda tragédia parece trazer consigo um recado dos deuses: somos mesmo pequenos e impotentes. Não somos assim tão donos do nosso destino. Acho que o texto abaixo sintetizou tudo que me veio à mente quando me pus a pensar sobre o ocorrido, e nada tenho a acrescentar.

Quatorze minutos de eternidade (por Ruy Castro)

03/06/2009 Folha de São Paulo

Entre a hora presumida de entrada do Airbus A330 da Air France na zona de turbulência sobre o Atlântico e a última mensagem enviada pelo equipamento do avião, na noite de domingo, passaram-se 14 minutos. Se fosse só isso, já seria aterrorizante. Mas o tempo de apreensão, angústia e pavor a bordo pode ter sido ainda maior para os 228 passageiros e tripulantes.

É tempo de sobra para que, diante da iminência de morte, a vida – tudo que se fez e se disse, ou o que deixou de ser feito ou ser dito_ passe várias vezes pela cabeça de uma pessoa, com uma definição de cinema. E com uma crueldade de Juízo Final, porque não há mais tempo para dizer ou fazer o que faltou.

Entre os que conseguem se manter íntegros em tal situação, há quem tente vencer o abismo rabiscando algo às pressas, descrevendo o avião em queda ou a aproximação das chamas, despedindo-se de parentes ou namorados, ou tentando deixar uma reflexão mais profunda. É uma tentativa desesperada de comunicar-se pela última vez, de fazer com que sua voz seja ouvida depois do nada.

Sabemos disso porque fragmentos dessas mensagens costumam ser encontradas em destroços de aviões caídos em terra. É por esses retalhos calcinados que nos damos conta de que o drama pessoal de cada vítima de um acidente aéreo é maior do que a fria estatística da soma dos mortos no mesmo acidente.

Na tragédia do voo AF 447, comovemo-nos com o casal rumo à lua-de-mel em Paris e com o alemão que iria tratar dos papéis para se casar com uma brasileira. Mas havia também empresários, professores e executivos, que viajavam a negócios, a estudos ou para receber prêmios _enfim, para um luminoso futuro próximo. E outros cujas histórias pessoais, talvez riquíssimas, nunca chegaremos a conhecer.

Ruy Castro é escritor e jornalista